julho 13, 2026 4:51 pm

A ponte que não vira entulho: carbono, cimento e a lição do Sr. Hansen

Blog Ecopontes  |  Série Pontes Mistas  |  Artigo nº 5

Nos anos 1950, um empresário de Joinville chamado João Hansen Júnior voltou de uma feira na Europa com uma ideia que quase ninguém no Brasil levava a sério: substituir o tubo de ferro galvanizado pelo PVC rígido nas instalações hidráulicas. A resistência foi dura e veio, sobretudo, dos engenheiros. Poucos acreditavam que pudesse existir algo melhor do que o ferro, que era o material conhecido, especificado e abonado pela norma e pelo hábito. Hansen insistiu durante anos. Hoje nenhum profissional em sã consciência projeta uma instalação predial em aço galvanizado, e a Tigre virou multinacional.

Conto essa história porque ela não trata de tubos, e sim da forma como uma matriz construtiva muda: nunca por decreto, sempre pela insistência técnica de quem enxerga antes. Guardadas as devidas proporções, é a mesma batalha que travamos hoje com as pontes mistas contra o reflexo do concreto. E há um argumento novo nessa disputa, um argumento que Hansen não tinha e que a nossa geração não pode ignorar: o carbono.

A conta que ninguém colocava na planilha

A produção de cimento responde por cerca de 7% de todas as emissões globais de CO₂, o triplo do que emite todo o tráfego aéreo do planeta. Trata-se de uma das maiores fontes isoladas de carbono da atividade humana.

E há um dado que muda a natureza do problema: cerca de 70% dessas emissões não vêm da queima de combustível no forno, mas da própria reação química de calcinação do clínquer. O calcário, ao ser transformado, libera CO₂ por definição. Não se trata, portanto, de uma questão de eficiência energética que a tecnologia resolverá sozinha, porque o carbono é intrínseco ao material. Melhorar o forno ajuda muito, mas a única tonelada de cimento que não emite é a tonelada que não se usa.

Uma ressalva honesta sobre o cimento

Seria fácil, e desonesto, parar por aqui e pintar o cimento como vilão. Não é o caso, e a indústria brasileira merece o reconhecimento: no Brasil, o setor cimenteiro responde por cerca de 2,3% das emissões nacionais, aproximadamente um terço da média mundial, e o país figura há décadas entre os que menos emitem CO₂ por tonelada de cimento produzida. É um dos setores industriais mais eficientes que temos e vem investindo seriamente em coprocessamento e descarbonização.

Tampouco o aço é inocente: sua produção também é intensiva em energia e emissões, e quem afirmar o contrário está fazendo propaganda em vez de informar.

O argumento correto, portanto, não passa por eleger um vilão. A pergunta que importa é outra: para o mesmo desempenho estrutural, qual solução consome menos massa, menos transporte e menos maquinário, e o que sobra dela no fim da vida? É aí que a ponte mista se destaca.

Menos massa, menos carbono: a cascata outra vez

Retomemos o número do artigo nº 3, agora sob a lente ambiental. Para o mesmo vão de 40 metros e o mesmo trem-tipo TT-45, a viga de concreto protendido pesa 120 toneladas e a viga metálica, 18,5. Cada tonelada que deixa de ser erguida é uma tonelada que não precisou ser produzida, transportada nem içada.

A economia de carbono, portanto, não vem só do material, ela desce em cascata: menos concreto e menos cimento na superestrutura; menos caminhões e menos quilômetros rodados com carga excepcional; guindastes menores e menos horas de máquina a diesel; menos peso próprio sobre pilares, estacas e blocos e, por consequência, menos concreto também nas fundações; e um canteiro mais curto, com menos consumo, menos resíduo e menos impacto sobre o entorno. A leveza estrutural acaba funcionando, na prática, como uma decisão ambiental.

A ponte que não vira entulho

Mas o argumento decisivo vem no fim da vida útil, o momento em que quase ninguém pensa quando assina o projeto.

Uma ponte de concreto, ao ser desativada, vira entulho: é preciso demolir, quebrar, transportar e aterrar. E todo o carbono investido nela se converte em passivo.

Com uma ponte metálica o destino é outro. O aço é integralmente reciclável, sem perda de propriedades: pode ser refundido e voltar à cadeia produtiva como aço novo quantas vezes for necessário. E, por ser uma estrutura aparafusada e modular, ela é desmontável, podendo ser desmembrada, transportada e, em muitos casos, remontada em outro local para servir a outra comunidade. A ponte deixa de ser um bem que se consome e passa a ser um ativo que circula.

É exatamente isso que se chama economia circular. E há uma consequência prática que nenhum gestor deveria ignorar: no fim da vida, a ponte de concreto é uma despesa de demolição; a ponte metálica é um ativo com valor residual.

E a lei, mais uma vez, já está do nosso lado

No artigo anterior mostramos que o art. 34, §1º da Lei nº 14.133/2021 manda considerar, na definição do menor dispêndio, os custos indiretos vinculados ao ciclo de vida. Vale reler a lista que o legislador escreveu: manutenção, utilização, reposição, depreciação e, literalmente, impacto ambiental. O carbono, portanto, deixou de ser discurso de marketing verde e passou a ser critério legal de julgamento, desde que objetivamente mensurável. E o art. 11, inciso I, já inscreve o ciclo de vida entre os próprios objetivos da licitação.

O instrumento existe. O que falta é o gestor usá-lo, e o engenheiro entregar-lhe os números para que possa fazê-lo com segurança diante do Tribunal de Contas.

Cem anos depois: a prova que está de pé

E o argumento não fica no papel: duas obras brasileiras o comprovam melhor do que qualquer estatística, e ambas passaram pelas mãos da Ecopontes.

Em Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, uma ponte de aço centenária segue em serviço. O trabalho ali não envolveu demolição: trocamos o velho tabuleiro de madeira por um tabuleiro inteiramente metálico, e o esqueleto original, com cem anos de rio, sol e carga, continua íntegro. Em vez de substituída, a ponte foi renovada.

Aquidauana (MS): o antigo tabuleiro de madeira sendo removido. A treliça centenária, ao redor, permanece íntegra.

O mesmo vão com o novo tabuleiro totalmente em aço, executado pela Ecopontes: o componente de desgaste é trocado, a estrutura é preservada e a vida útil se estende por décadas.

Em Jaguari, no Rio Grande do Sul, a história é ainda mais eloquente, e essa nós conhecemos de perto, porque a construtora foi a Ecopontes.

A ponte Julio de Castilhos foi erguida em 1898. Cento e vinte anos depois, um de seus vãos colapsou. É a cena que as fotos registram, com a estrutura tombada sobre o rio. Uma obra de concreto, naquela situação, significaria uma só coisa: demolição, remoção de entulho e ponte nova. Por ser de aço, o desfecho foi outro: a estrutura foi reconstruída e restaurada e, em 25 de maio de 2018, mediante convênio com o DAER/RS, a Julio de Castilhos foi reinaugurada e devolvida à população.

Jaguari (RS): o vão colapsado da ponte Julio de Castilhos, de 1898. Em concreto, seria o fim da obra.

A mesma ponte após o retrofit executado pela Ecopontes: recuperada, pintada e de volta ao serviço.

É a diferença entre reparar e recomeçar do zero. O aço admite retrofit: é possível reforçar um trecho, substituir uma chapa, trocar um tabuleiro ou reconstruir um vão inteiro. A obra é cirúrgica, o patrimônio é preservado e o carbono já investido na estrutura permanece em serviço, em vez de virar aterro. Uma ponte metálica bem cuidada não tem, a rigor, uma data de morte; o que ela tem são ciclos de renovação.

A placa da reinauguração, em 25/05/2018, registra “1898 – 2018”: cento e vinte anos de serviço.

A lição que atravessa as décadas

Hansen enfrentou uma geração de engenheiros que não conseguia imaginar a água correndo por outro material que não o ferro. Venceu com desempenho, com custo e com o tempo a seu favor, não com retórica. A cultura cedeu porque a evidência não parou de se acumular.

Nossa disputa é a mesma, e o argumento hoje é ainda mais amplo: a ponte mista custa menos ao longo da vida, é montada em menos tempo, pode ser inspecionada e, no fim, não vira entulho, porque volta a ser aço ou volta a ser ponte.

Na placa que fixamos em Jaguari está escrita, em bronze, a síntese de tudo o que este artigo tentou dizer: a ponte foi “reconstruída e restaurada para servir no presente e às futuras gerações o esforço edificado pelo passado”. Não há definição melhor de economia circular do que essa, nem homenagem maior a quem, em 1898, construiu com aço.

Prof. Me. Eng. Fernando César HúngaroDiretor da Ecopontes


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