junho 25, 2026 4:01 pm

120 toneladas ou 18,5 toneladas : A mesma ponte, duas engenharias, dois custos bem diferentes.

Ontem, em viagem, parei à beira da estrada diante de uma cena que todo engenheiro de pontes deveria ver pelo menos uma vez — não pela beleza, mas pela lição. Era o lançamento de vigas de concreto protendido de 40 metros, cada uma pesando 120 toneladas. Uma operação imponente, cara e tensa. E foi impossível não pensar: para o mesmo vão e a mesma carga, nós da Ecopontes resolvemos isso com uma fração desse esforço. Este artigo é sobre o porquê.

Foto 1 — O lançamento que parei para observar: viga de concreto protendido de 40 m e 120 t sendo posicionada sobre os pilares.

O mesmo problema estrutural, resolvido de dois jeitos
Comecemos pelo que iguala as duas soluções, para que a comparação seja honesta. Ambas as vigas — a de concreto protendido e a mista aço-concreto — vencem 40 metros de vão e são dimensionadas para o mesmo trem-tipo, o TT-45 da NBR 7188. Mesma exigência normativa, mesmo desempenho estrutural final. O que muda é tudo o que acontece entre a prancheta e a viga apoiada sobre os pilares.
E aqui está o número que resume a história: a viga de concreto protendido pesa 120 toneladas; a viga metálica equivalente, 18.5 toneladas. Cerca de seis vezes e meia mais leve, para a mesma função. Vale a ressalva técnica, para não haver mal-entendido entre colegas: compara-se aqui o peso de manuseio e içamento. Na solução mista, iça-se a viga de aço — leve — e a laje de concreto é executada depois, no local, garantindo a ação mista. É precisamente nessa inversão que nasce a economia.

Foto 2 — Detalhe dos conectores de cisalhamento no topo da viga metálica: é o que garante a ação mista com a laje concretada in loco.

A cascata de consequências do peso
Peso, em obra, nunca é um número isolado. Ele se propaga por toda a logística. Foi o que as fotos registraram:

Foto 3 — Carregamento na pista de moldagem: duas máquinas de 350 t e transporte sobre dolly + cavalo mecânico.

Repare na coluna do concreto. Para apenas tirar a viga da pista de moldagem e colocá-la sobre a carreta, foram necessárias duas máquinas de 350 toneladas. Carregada sobre o conjunto dolly + cavalo mecânico, a peça segue até o ponto de içamento, onde outras duas máquinas de 350 toneladas aguardam para erguê-la sobre as transversinas. É uma frota pesada, mobilizada, montada, desmontada e deslocada — duas vezes. Cada movimento de uma peça de 120 toneladas é um içamento crítico, com plano de rigging, área isolada e risco operacional proporcional.

Foto 4 — Vista geral da operação: máquinas de grande porte mobilizadas simultaneamente no pátio e no vão.

Foto 5 — Só para sair da pista, a viga de 120 t já exige frota pesada e transporte especial.

Agora a coluna do aço. A viga metálica de 18,5 toneladas é erguida por um único guindaste de 200 toneladas. Uma máquina. Um içamento. Sem transporte especial, sem frota dobrada, sem o bailado de quatro gigantes em solo de barro.

Foto 6 — Solução mista Ecopontes: içamento da viga de 40 m com um único guindaste — uma máquina, um içamento.

O que não aparece na foto, mas pesa no custo
A operação de concreto que presenciei é apenas a ponta visível. Antes dela existe uma cadeia inteira que consome tempo, área e dinheiro: as pistas de moldagem, a armação, a montagem das formas, o lançamento do concreto, a cura, a aplicação da protensão e a desforma — um ciclo de dias a semanas por viga, sensível ao clima e amarrado ao caminho crítico da obra. É um canteiro que vira fábrica improvisada, com toda a ineficiência que isso carrega.

Foto 7 — Superestrutura em concreto protendido: cada viga de 120 t apoiada é o fim de um longo ciclo de pista, cura e protensão.

A viga mista nasce em ambiente industrial controlado, na oficina, com qualidade de fabricação verificável e independente da chuva. Chega à obra como módulo leve, transportável em carreta comum, e se monta com rapidez. A fabricação deixa de disputar espaço e tempo com o canteiro: corre em paralelo, fora do caminho crítico.

Foto 8 — Pré-montagem das vigas metálicas em sítio de difícil acesso: leveza que viabiliza a logística onde o concreto não chega.

Foto 9 — Vigas metálicas preparadas no canteiro, com o encontro já impermeabilizado — montagem rápida e limpa.

E há um efeito que desce até as fundações. Menos peso próprio na superestrutura significa menor carga permanente sobre pilares, encontros e estacas — exatamente o tema que tratamos no artigo anterior. A economia da viga leve não para na viga: ela se propaga para baixo, aliviando toda a infraestrutura.

Onde está a justiça do argumento
Não escrevo isto para diminuir o concreto protendido, que é uma tecnologia madura, robusta e insubstituível em muitas situações — séries longas com transporte curto, contextos onde a logística do aço é inviável, entre outras. Tampouco ignoro que o aço exige sua própria gestão, a da proteção contra a corrosão, como já discutimos. A questão não é eleger um vilão.
A questão é de proporção. Para uma enorme quantidade de vãos e sítios brasileiros, a solução mista entrega o mesmo desempenho estrutural — o mesmo TT-45, os mesmos 40 metros — com uma fração do esforço de fabricação, transporte, içamento, prazo e risco. Quando se escolhe a matriz construtiva de uma ponte, escolhe-se junto a sua curva de custo, de prazo e de risco operacional. Diante da mesma exigência, um caminho mobiliza uma frota de guindastes de 350 toneladas; o outro, uma única máquina de 200.
As fotos não mentem. E, para quem decide, talvez digam mais do que qualquer cálculo.

Prof. Me. Eng. Fernando César Húngaro
Diretor — Ecopontes Sistemas Estruturais Sustentáveis

Categorias: Informativo

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