junho 7, 2026 8:48 am

Depois de 20 anos construindo pontes, aprendi uma coisa que nenhuma planilha ensina: o rio não discute orçamento.

Quem projeta e constrói obras de arte especiais em rios de planície aluvial, sobretudo na Amazônia, convive com um fenômeno que não perdoa erro de concepção: as terras caídas. É o processo de instabilização e desabamento das margens fluviais — solapamento basal, erosão e perda de coesão — que avança, silencioso, até alcançar a estrutura. Quando alcança, o desfecho costuma ser súbito.

E aqui vai a convicção que firmei ao longo desses anos, sem militância e com respeito a todas as soluções estruturais: nesses sítios, o erro mais caro raramente está na escolha do material do tabuleiro. Está na decisão, tomada lá no início do projeto, de onde colocar os apoios.

Por que tantos apoios terminam na margem

A lógica é compreensível e, à primeira vista, econômica. Apoiar nas margens encurta o vão, e vão mais curto significa tabuleiro mais barato. É uma conta que fecha no escritório — e que se rompe no rio. Porque a margem é, exatamente, o pior lugar possível para um apoio em terreno de terras caídas. É ali que dois mecanismos destrutivos se sobrepõem sobre o mesmo elemento: a erosão hidráulica que solapa a fundação por baixo e o recuo da margem que a desconfina por fora. Não é um risco; são dois, somados no mesmo ponto.

A solução de engenharia, então, não é proteger melhor um apoio mal localizado. É não colocá-lo ali.

A verdadeira questão de projeto é o vão

Recuar os apoios para terreno firme, fora da faixa de margem instável, transpondo a calha ativa com vãos maiores, é o que efetivamente afasta a estrutura da zona de ataque. Vão maior significa menos apoios dentro do leito, pilares altos evitados e — o que mais importa aqui — nenhum elemento estrutural plantado onde a margem vai recuar. Você não blinda o pilar contra o fenômeno; você tira o pilar do caminho do fenômeno.

Onde entram as pontes mistas

É aqui, e não em outro lugar, que reside a maior contribuição da solução mista aço-concreto. Não vou afirmar o que seria tecnicamente desonesto: a ponte mista não “evita” as terras caídas nem cura o solapamento de fundação. Esses são problemas de hidráulica fluvial e de geotecnia, resolvidos com fundação dimensionada abaixo da erosão máxima prevista e com proteção de margem bem executada — qualquer que seja a superestrutura.

O que a solução mista faz, e faz como poucas, é viabilizar economicamente o grande vão. Pela leveza e pela eficiência da seção, ela torna financeiramente possível aquele vão que recua os apoios para longe da margem — exatamente a concepção que protege a obra. A mista não é a cura; é o que torna viável a concepção que protege.

Há ainda um segundo atributo que merece registro: o comportamento dúctil e contínuo das estruturas mistas tende a avisar antes de falhar — flecha, fissuração, deformação perceptível — abrindo janela para interdição, em vez de ceder de uma só vez. Em sítios onde o colapso costuma ser repentino, esse aviso prévio não é detalhe; é segurança.

Respeito às demais soluções

Sou defensor das pontes mistas, mas não por lealdade a um material — e sim por aquilo que elas permitem fazer. Costuma-se apontar a corrosão e a manutenção como fragilidades em clima úmido, e a observação merece uma resposta franca: quem vê, cuida. As pontes mistas são de fácil manutenção, mesmo em locais de elevada umidade, precisamente porque a estrutura é aparente, inspecionável a olho e ao alcance da mão. A corrosão se enxerga e se trata antes de comprometer; já a deterioração interna do concreto costuma avançar escondida e só se manifestar tarde, quando o reparo é mais caro. Com aço bem especificado e proteção adequada, a mista entrega durabilidade justamente porque permite ver e agir a tempo.

Nada disso me faz desprezar o concreto armado e o protendido, que seguem sendo excelentes soluções, com ótima relação custo-benefício em inúmeras situações. Defendo apenas que a visibilidade da estrutura mista é, bem compreendida, uma vantagem de manutenção — e não a desvantagem que às vezes se supõe.

O que não muda, para nenhuma tipologia, é a regra de ouro nesses rios: fundação ancorada abaixo da erosão máxima e margem protegida. A escolha da superestrutura não substitui esse dimensionamento. Ela apenas decide quantos pontos de risco você terá de vencer — e, no melhor dos casos, permite que você não precise plantar a fundação no pior lugar do rio.

A pergunta que deixo aos colegas não é “concreto ou misto?”. É: onde estão os seus apoios, e por quê?

Autor: Fernando César Húngaro Engenheiro Civil (CREA-SP)Fundador e Diretor da Ecopontes — Sistemas Estruturais Sustentáveis Professor de Estruturas — Toledo Prudente Centro Universitário

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