{"id":1983,"date":"2026-08-05T16:24:09","date_gmt":"2026-08-05T19:24:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ecopontes.com.br\/blog\/?p=1983"},"modified":"2026-08-05T16:24:09","modified_gmt":"2026-08-05T19:24:09","slug":"pontes-que-nao-terminam-e-pontes-que-nao-resistem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ecopontes.com.br\/blog\/pontes-que-nao-terminam-e-pontes-que-nao-resistem\/","title":{"rendered":"Pontes que n\u00e3o terminam, e pontes que n\u00e3o resistem"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Blog Ecopontes&nbsp; |&nbsp; S\u00e9rie Pontes Mistas&nbsp; |&nbsp; Artigo n\u00ba 17<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por que a seguran\u00e7a e o destino de uma ponte p\u00fablica come\u00e7am a ser decididos no edital. Um alerta aos gestores.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em 22 de dezembro de 2024, o v\u00e3o central da ponte Juscelino Kubitschek, sobre o Rio Tocantins, na BR-226, cedeu e desabou em segundos. Levou consigo quatorze vidas, e tr\u00eas pessoas nunca foram encontradas. Caminh\u00f5es carregados de \u00e1cido sulf\u00farico e de agrot\u00f3xico ca\u00edram no rio, e por dias uma regi\u00e3o inteira temeu pela \u00e1gua que bebia. Felizmente, as amostras coletadas na semana seguinte n\u00e3o apontaram contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos. Mas a li\u00e7\u00e3o mais dura n\u00e3o est\u00e1 no dia da queda.<\/p>\n\n\n\n<p>A ponte era de 1961. Sua \u00faltima grande reforma aconteceu entre 1998 e 2000, e dela vem o refor\u00e7o de protens\u00e3o externa que ainda se v\u00ea na lateral, junto com a troca do revestimento original por uma camada de asfalto. S\u00f3 que o tr\u00e1fego e o peso dos caminh\u00f5es n\u00e3o pararam de crescer, e a estrutura n\u00e3o acompanhou. J\u00e1 em 2020, um relat\u00f3rio do DNIT apontava rachaduras e inclina\u00e7\u00e3o nos pilares. Em maio de 2024, o \u00f3rg\u00e3o chegou a abrir um processo para contratar uma nova reforma, que n\u00e3o foi adiante. No colapso, segundo o laudo da Pol\u00edcia Federal, o refor\u00e7o lateral se desprendeu do concreto. A ponte n\u00e3o come\u00e7ou a cair naquela tarde de dezembro: come\u00e7ou a cair anos antes, em paliativos e em decis\u00f5es que n\u00e3o foram tomadas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"359\" height=\"475\" src=\"https:\/\/www.ecopontes.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/image-9.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1985\" srcset=\"https:\/\/www.ecopontes.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/image-9.jpeg 359w, https:\/\/www.ecopontes.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/image-9-227x300.jpeg 227w\" sizes=\"(max-width: 359px) 100vw, 359px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Ponte Juscelino Kubitschek, sobre o Rio Tocantins (Estreito\/MA e Aguiarn\u00f3polis\/TO). A protens\u00e3o externa vis\u00edvel na lateral \u00e9 resultado da reforma de 1998 a 2000; no colapso de dezembro de 2024, esse refor\u00e7o se desprendeu do concreto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 um caso isolado. At\u00e9 abril de 2025, o Tribunal de Contas da Uni\u00e3o registrava 11.469 obras p\u00fablicas paralisadas, mais da metade de todas as obras federais mapeadas, com R$ 15,9 bilh\u00f5es j\u00e1 gastos em empreendimentos que n\u00e3o entregam nada \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. E o problema se renova a cada ciclo: de cada dez obras iniciadas no \u00faltimo ano, mais de duas j\u00e1 est\u00e3o paradas. As pontes s\u00e3o apenas uma fatia desse n\u00famero, mas uma fatia cr\u00edtica: uma ponte parada isola comunidades inteiras, e uma ponte mal conservada mata.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, portanto, duas faces do mesmo problema de governan\u00e7a. Numa ponta, o pa\u00eds n\u00e3o conserva o que j\u00e1 tem, e estruturas antigas chegam ao colapso. Na outra, n\u00e3o constr\u00f3i direito o que \u00e9 novo, e a obra emperra antes de terminar. Este texto trata sobretudo da segunda face, porque \u00e9 ali que o gestor tem mais poder de mudar o resultado. E o ponto de partida \u00e9 sempre o mesmo documento: o edital.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que a obra para antes de acabar<\/h2>\n\n\n\n<p>A obra p\u00fablica raramente para por falta de dinheiro no sentido abstrato. Ela para porque o contrato nasceu fr\u00e1gil. E a fragilidade quase sempre vem de escolhas que se repetem no edital.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira \u00e9 a CAT gen\u00e9rica. Quando o edital n\u00e3o exige a comprova\u00e7\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o das parcelas de maior relev\u00e2ncia t\u00e9cnica da obra, ele abre a porta para empresas que nunca fizeram aquilo. A Lei n\u00ba 14.133\/2021, no seu art. 67, permite exigir essa qualifica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, mas muitos editais simplesmente n\u00e3o a exigem. O resultado \u00e9 previs\u00edvel: vence quem n\u00e3o tem lastro para executar.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda \u00e9 o or\u00e7amento mal montado, com BDI espremido, data-base defasada e sem cl\u00e1usula de reajuste. Quando o or\u00e7amento de refer\u00eancia usa uma data-base antiga, adota um BDI irreal e n\u00e3o traz reajuste, o pre\u00e7o j\u00e1 nasce menor que o custo verdadeiro da obra. Isso convida o desconto predat\u00f3rio: vence quem oferece o valor imposs\u00edvel, e a obra trava no momento em que o dinheiro acaba, que \u00e9 cedo.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale sublinhar: isso n\u00e3o \u00e9 um problema de material. Vale para o concreto e para a estrutura mista igualmente. \u00c9 uma falha de especifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de tecnologia, e \u00e9 justamente por isso que a corre\u00e7\u00e3o est\u00e1 ao alcance de quem escreve o edital.<\/p>\n\n\n\n<p>Para dar a dimens\u00e3o do terreno: um levantamento nos dados abertos do TCE-RS aponta cerca de 980 contratos de obras de ponte no Rio Grande do Sul entre 2024 e 2026, com valor mediano em torno de R$ 184 mil. \u00c9 um universo de pequenas travessias rurais, de baixo valor, exatamente o tipo de obra mais exposto \u00e0 disputa predat\u00f3ria e ao abandono silencioso, longe dos holofotes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Como blindar o edital: uma lista para o gestor<\/h2>\n\n\n\n<p>Cinco exig\u00eancias, todas ao alcance do munic\u00edpio, que separam &#8220;contratei o menor pre\u00e7o&#8221; de &#8220;entreguei a ponte&#8221;:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Exigir CAT das parcelas de maior relev\u00e2ncia, <\/strong>com quantitativo m\u00ednimo, nos termos do art. 67 da Lei n\u00ba 14.133\/2021. Isso garante que quem vai executar j\u00e1 executou algo equivalente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Or\u00e7amento com data-base atualizada e cl\u00e1usula de reajuste obrigat\u00f3ria <\/strong>sempre que a base tiver mais de doze meses na data da sess\u00e3o. O pre\u00e7o tem que refletir o custo de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. BDI de refer\u00eancia realista e dilig\u00eancia efetiva de exequibilidade <\/strong>quando o desconto ofertado ultrapassar o limiar que, na pr\u00e1tica, anula o BDI. Pre\u00e7o bom demais para ser verdade costuma n\u00e3o ser.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. Projeto executivo completo e precificado antes de licitar, <\/strong>n\u00e3o depois. Obra licitada sobre projeto b\u00e1sico incompleto \u00e9 aditivo e paralisa\u00e7\u00e3o esperando para acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5. Fiscaliza\u00e7\u00e3o e registro de acompanhamento desde a ordem de in\u00edcio. <\/strong>O que n\u00e3o \u00e9 acompanhado n\u00e3o \u00e9 gerido.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada um desses itens protege o gestor tanto quanto protege a obra. Um edital bem constru\u00eddo \u00e9, antes de tudo, um escudo de responsabilidade para quem o assina. \u00c9 o mesmo racioc\u00ednio que desenvolvemos no artigo n\u00ba 10 desta s\u00e9rie, sobre como especificar uma ponte mista em edital, e no artigo n\u00ba 11, sobre o que protege quem assina uma decis\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"416\" height=\"459\" src=\"https:\/\/www.ecopontes.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/image-8.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1984\" srcset=\"https:\/\/www.ecopontes.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/image-8.jpeg 416w, https:\/\/www.ecopontes.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/image-8-272x300.jpeg 272w\" sizes=\"(max-width: 416px) 100vw, 416px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Inaugura\u00e7\u00e3o de ponte no Mato Grosso: projeto bem elaborado, edital e contrato corretos, com prazo e qualidade entregues.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">E existe uma resposta de projeto<\/h2>\n\n\n\n<p><em>Uma observa\u00e7\u00e3o de transpar\u00eancia, porque o leitor merece: dirijo uma empresa que fabrica pontes mistas de a\u00e7o e concreto. Pe\u00e7o, portanto, que este trecho seja pesado com esse filtro, e que os argumentos sejam avaliados pelo que valem tecnicamente, n\u00e3o pela boa vontade com o autor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Feita a ressalva: a solu\u00e7\u00e3o mista responde bem justamente \u00e0s duas faces do problema. No prazo de execu\u00e7\u00e3o, a montagem de pe\u00e7as pr\u00e9-fabricadas dispensa o cimbramento moldado no local, que \u00e9 o verdadeiro gargalo em v\u00e3os pequenos e m\u00e9dios e, sobretudo, nas travessias sobre \u00e1gua. Menos tempo de obra significa menos janela para que a obra trave. E, quando conservada, a estrutura tem vida \u00fatil longa, o que atenua a face do abandono do estoque existente.<\/p>\n\n\n\n<p>No impacto ambiental, o ganho \u00e9 honesto e mensur\u00e1vel em ciclo de vida: menor interven\u00e7\u00e3o no leito do rio, porque se reduz a f\u00f4rma e o escoramento sobre a \u00e1gua, e a circularidade do a\u00e7o ao fim da vida \u00fatil. N\u00e3o se trata de dizer que &#8220;a\u00e7o \u00e9 verde&#8221;, porque a produ\u00e7\u00e3o do a\u00e7o tem o seu custo, mas de comparar o balan\u00e7o completo, do canteiro ao descomissionamento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O edital decide<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma ponte n\u00e3o come\u00e7a a cair no dia em que cai, nem para no dia em que o dinheiro acaba. Ela \u00e9 decidida antes, na p\u00e1gina do edital, no momento em que se escolhe o que exigir e o que ignorar. O gestor que entende isso tem, na m\u00e3o, o instrumento mais barato e mais poderoso de que disp\u00f5e para proteger vidas, recursos p\u00fablicos e a pr\u00f3pria assinatura: revisar o edital antes de public\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um ato de gest\u00e3o, n\u00e3o de engenharia. E est\u00e1 inteiramente ao seu alcance.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"90\" height=\"90\" src=\"blob:https:\/\/www.ecopontes.com.br\/a5ad7e33-a1d3-4aa1-8748-82e88ab9b708\"><\/td><td><strong>Prof. Me. Eng. Fernando C\u00e9sar H\u00fangaro<\/strong> Diretor T\u00e9cnico \u00b7 Ecopontes Sistemas Estruturais Sustent\u00e1veis<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Blog Ecopontes&nbsp; |&nbsp; S\u00e9rie Pontes Mistas&nbsp; |&nbsp; Artigo n\u00ba 17 Por que a seguran\u00e7a e o destino de uma ponte p\u00fablica come\u00e7am a ser decididos no edital. Um alerta aos gestores. Em 22 de dezembro de 2024, o v\u00e3o central da ponte Juscelino Kubitschek, sobre o Rio Tocantins, na BR-226, cedeu e desabou em segundos. 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